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Um generoso esculápio Luzia Martins de Souza

 

Um generoso esculápio
 
Sentado numa das poltronas da recepção do Hospital Militar de Salvador (HMS), um ancião, com forte crise enfizêmica, aguardava atendimento. De repente, entra, apressadamente,um jovem fardado que chegava atrasado para a obrigatória apresentação diária ao Coronel Diretor e vê aquele
paciente em estado desesperador.
O jovem não vacila em retardar, mais ainda, a sua apresentação. Assume o risco da possível punição, vai ao encontro do paciente, colocando a sua missão humanitária acima do compromisso disciplinar, como estagiário-médico numa instituição militar.
O socorro imediato foi prestado; o jovem médico só se afasta  para  cumprir o protocolo de chegada, quando o socorrido estava em condições de aguardar o registro da sua internação.
Quem são os protagonistas desse episódio?
Firmino Souza Júnior, meu esposo - quase 70 anos – e o jovem Tenente médico Rodrigues, convocado para o período de residência médica no HMS.
Iniciava-se uma trajetória admirável de assistência profissional, efetiva e de absoluta confiabilidade entre ambos.
Encerrados os trâmites de cadastramento, foi o paciente internado sob a responsabilidade do seu filho, Ivan Sérgio, na época Capitão do Exército e o Dr. Lúcio escalado para seu assistente.
Diariamente,durante a internação, a visita médica era infalível, até o dia da alta, quando o paciente já apresentava outra aparência, embora ainda carente de assistência contínua e controle quanto ao uso de medicamentos e outras prescrições.
O velho não possuía plano particular de saúde e teimava em não fazê-lo .Então, o filho o inscreveu na Golden Cross, para lhe assegurar assistência médica de qualidade e hospitalização. Ele resistia a ser atendido pelo médico do Convênio. Somente o Dr, Lúcio saberia cuidar do seu caso.
Depois daquela grande crise, submetido a tratamento rigoroso, usando direitinho os remédios, ele ficou muito bem, dirigia seu “fusca”, enfim, levava vida normal.
Com muita insistência, conseguimos levá-lo ao médico do Convênio, sem sabermos que ele procurava Dr. Lúcio na Clínica particular. Como descobrimos? Observamos a recusa sistemática ao receituário do novo assistente e nos dizia que continuava a usar os medicamentos do Dr. Lúcio. Resolvi conversar com ele e, assim, me inserir na “trama”... Os dois já se entendiam... E mais: cliente gratuito,confessou-me depois.
OH! Que horror!... disse eu para o marido.Você não paga as suas consultas? Não, ele não aceita e me diz que filho não cobra consulta de pai.
Desde a primeira crise, fomos avisados de que a doença era crônica, em grau adiantado e, como tal, de certa gravidade,de modo que, medicamentos e regimes deveriam ser obedecidos religiosamente.
O tempo foi passando, ele reagindo muito bem ao tratamento. Sentindo-se em recuperação, começou a relaxar as recomendações do seu médico, apesar das nossas queixas ao assistente e aos nossos protestos em casa.
Consequência: novas crises surgiram, leves inicialmente, agra-vando-se aos poucos. Quantas vezes liguei: Dr. Lúcio, Firmino não está bem!...E a resposta: “Passo aí, logo que saia daqui do consultório” ou, quando a situação era mais grave: “Leve para o Hospital Salvador, entre pela Emergência. Chegarei logo.”
E mais: quando demoravam em transferir o paciente da emergência para o apartamento, ele providenciava com veemência junto à administração, alegando um ancião de quase 80 anos, com doença grave, ter prioridades e necessidade de conforto imediato.
Que beleza! Que dedicação!
Quase 10 anos ou mais se passaram e a nossa amizade foi se estreitando, ao ponto de nos sentirmos como se fôssemos, realmente, uma mesma família.
Mais um episódio me emociona ao relembrá-lo: depois de tantos anos de luta por uma vida, chegou o epílogo, o último internamento, no Hospital Salvador. Com os olhos marejados, Lúcio me informa: Luzia, é a fase final... não creio que ele volte para casa. Estou com viagem marcada para um Congresso, mas ficará com ele uma colega da minha confiança. A situação dele pede UTI, você autoriza? Falei: você é quem  determina o que deverá ser feito. E ele:se fosse meu pai genético, queria que ele ficasse aqui, junto à família. Assim foi feito.
Dia seguinte 05.10.96-: Lúcio no aeroporto e Firmino partindo para a eternidade.
Comovente cartão acompanhou coroa de flores enviada pelo “filho” para o “pai” adormecido no Jardim da Saudade.
 
Diz o refrão: “há razões que a própria razão desconhece”
 
Lúcio : é imensurável a nossa gratidão e, maior ainda, a amizade que nossa família lhe dedica.
Hoje, você é o médico insubstituível (como ele dizia) da família próxima, parentes e amigos conhecedores das suas qualidades profissionais e humanitárias.
O sucesso na sua profissão não acontece por acaso, mas conseqüente da dedicação aos estudos das ciências médicas e aos seus pacientes, bem como, pelo coração grandioso que o Arquiteto do Universo lhe reservou.
 
                           Um grande abraço de
                         Luzia Martins de Souza
 

Salvador, ag/09